domingo, 28 de fevereiro de 2010









o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

sábado, 20 de fevereiro de 2010


"Um barulho fez-se ouvir atrás dela.
Coraline virou-se. Em pé, sobre o muro próximo a ela, achava-se um gato grande e preto, idêntico ao gato grande e preto que vira no terreno de casa.
- Boa tarde - disse o gato.
Sua voz soava como uma voz de dentro da cabeça de Coraline, a voz com a qual ela pensava as palavras; mas essa era uma voz de homem, não de menina;
- Olá - disse Coraline. - Eu vi um gato como você no jardim lá de casa. Você deve ser o outro gato.
O gato balançou a cabeça.
- Não - disse. - Não sou o outro coisa nenhuma. Sou eu. - Inclinou a cabeça para o lado; os olhos verdes brilhavam. - Vocês, pessoas, se esparramam por toda parte. Nós gatos, nos mantemos íntegros, se é que me entende.
- Suponho que sim. Mas, se você é o mesmo gato que vi lá em casa, como sabe falar?
Gatos não têm ombros, não como as pessoas; mas ele encolheu-se em um movimento suave quecomeçava na ponta do rabo e terminava no gesto de elevação dos bigodes.
- Eu sei falar.
- Lá em casa, os gatos não falam.
- Não? - perguntou o gato.
- Não - respondeu Coraline.
O gato pulou gentilmente do muro para a grama perto dos pés de Coraline. Olhou-a fixamente.
- Bem, é você a especialista - disse o gato secamente. - Afinal, que sei eu? Sou apenas um gato.
Foi se afastando com a cabeça e a cauda erguidas orgulhosamente.
- Volte - disse Coraline. - Por favor, desculpe-me. Sinceramente, desculpe-me.
O gato parou de andar, sentou e começou a se lamber pensativo, aparenteente sem perceber a existência de Coraline.
- Nós poderíamos ser amigos, sabe? - disse Coraline.
- Nós poderíamos ser espécimes raros de uma raça exótica de elefantes africanos dançarinos - respondeu o gato. - Mas não somos. Pelo menos - acrescentou felinamente depois de disparar um rápido olhar para Coraline -, eu não sou.
Coraline suspirou.
- Por favor, qual é o seu nome? - perguntou ao gato. - Olha, sou Coraline. Tá?
O gato bocejou lenta e cuidadosamente, revelando uma boca e uma língua de um rosa impressionante.
- Gatos não têm nomes - disse.
- Não? - perguntou Coraline.
- Não - respondeu o gato. - Agora, vocês pessoas têm nomes.
Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes.
Havia algo irritante e arrogante no gato, Coraline concluiu. Como se fosse, em sua opinião, a única coisa em qualquer mundo ou lugar que pudesse ter alguma importância.
Metade de Coraline queria ser rude com ele, a outra metade queria ser educada e respeitosa. A metade educada venceu.
- Por favor, que lugar é esse?
O gato olhou rapidamente ao seu redor.
- É aqui - respondeu.
- Isso eu posso ver. Bem, como você chegou aqui?
- Do mesmo modo que você. Eu caminhei - disse o gato - Assim.
Coraline observou o gato andar lentamente pelo gramado. Passou por trás de uma árvore e não apareceu do outro lado. Coraline foi até a árvore e olhou por detrás. O gato havia sumido.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010



A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
O que me é de direito
E Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de são Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão